Nem sempre o Jornalismo esteve nos planos de Naomi Rodrigues. Hoje estudante da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ex-estagiária da TV Difusora e da Assessoria de Comunicação da UFMA, ela conta que a profissão surgiu de forma inesperada em sua vida. Inicialmente, sua aproximação com o curso aconteceu por influência de amigos jornalistas e pelo interesse em pesquisas relacionadas à moda e à estética. No entanto, foi durante as primeiras experiências acadêmicas que descobriu o verdadeiro potencial da comunicação. "Eu percebi que através do jornalismo eu poderia contar a minha história ou a história de outras pessoas", afirma. A partir desse momento, encontrou no Jornalismo uma ferramenta para dar visibilidade a narrativas muitas vezes silenciadas e passou a enxergar a profissão como parte essencial da sua identidade.
Ao longo da graduação, Naomi também precisou enfrentar desafios que ultrapassam as exigências acadêmicas. Como primeira aluna transexual do curso de Jornalismo da UFMA, vivenciou processos de adaptação institucional e ajudou a abrir caminhos para estudantes que vieram depois dela. Questões como a retificação do nome no sistema universitário e o reconhecimento de sua identidade fizeram parte de uma luta que se estendeu por anos. "Eu meio que tive que abrir muito espaço para as pessoas que estão hoje aqui", relata. Além disso, enfrentou dificuldades financeiras que chegaram a interromper temporariamente sua trajetória universitária. Sem uma rede de apoio familiar estruturada, precisou trabalhar para garantir sua permanência na universidade. Ainda assim, destaca o acolhimento recebido de colegas, professores e servidores que caminharam ao seu lado durante esse processo.
A vivência como mulher trans também marcou sua relação com os estudos e com o mercado de trabalho. Naomi afirma que frequentemente sente a necessidade de demonstrar mais competência para conquistar reconhecimento profissional. "Eu senti que teria que ser sempre o dobro, o triplo", revela. Essa percepção acompanha muitas pessoas trans que buscam ocupar espaços historicamente negados. Para ela, o desafio não está apenas em conseguir oportunidades, mas em ser reconhecida pelas suas habilidades e não apenas pela identidade de gênero. Segundo a estudante, a comunicação ainda precisa avançar para que profissionais trans deixem de ser tratados como exceções e passem a ocupar espaços de forma natural e permanente.
As experiências na TV Difusora e na Assessoria de Comunicação da UFMA contribuíram para ampliar sua visão sobre o mercado da comunicação e fortaleceram seu interesse pela produção audiovisual. Naomi destaca que a emissora foi responsável por grande parte da sua formação profissional. "Foi a primeira vez que as pessoas souberam quem era Naomi Rodrigues", afirma. Ao mesmo tempo, as experiências permitiram reflexões importantes sobre representatividade e visibilidade. Embora reconheça avanços na presença de pessoas trans na comunicação, ela acredita que ainda existem barreiras significativas para que profissionais trans ocupem posições de destaque na televisão e em outros meios de comunicação. Mesmo sem definir exatamente qual caminho seguirá após a graduação, Naomi tem um objetivo claro: contribuir para que futuras gerações encontrem um mercado mais inclusivo. "Eu queria que as pessoas olhassem para a gente como profissionais competentes", destaca. Sua trajetória demonstra que ocupar espaços na comunicação também significa abrir portas para que outras pessoas possam sonhar, permanecer e transformar realidades.
Mais do que uma estudante de Jornalismo, Naomi Rodrigues representa uma geração de pessoas trans que desafiam diariamente as barreiras impostas pelo preconceito para ocupar espaços de formação e trabalho. Sua trajetória na UFMA, em Imperatriz, é marcada pela persistência diante das dificuldades e pela busca constante por reconhecimento profissional. Entre salas de aula, experiências em comunicação institucional e passagens pelo telejornalismo, Naomi constrói uma história que evidencia os avanços conquistados, mas também os desafios que ainda permanecem para a população trans no mercado da comunicação.
O jornalismo nem sempre esteve nos seus planos