Em um país onde pessoas trans ainda enfrentam barreiras para acessar espaços profissionais, Mell Almeida transformou sua presença na televisão em um ato de resistência cotidiana. Jornalista, apresentadora, editora e repórter, ela entrou para a história como a primeira mulher trans a atuar como repórter de TV no Rio Grande do Norte. Natural de Macau (RN), construiu uma trajetória marcada pela versatilidade, atuando no jornalismo factual, em reportagens de rua, programas de entretenimento e na cobertura de grandes eventos populares. Com quatro prêmios de jornalismo no currículo, tornou-se uma referência de representatividade para a população LGBTQIAPN+, especialmente para pessoas trans que sonham ocupar espaços historicamente negados.
Para Mell, a construção de uma cobertura ética começa antes mesmo da reportagem ganhar forma. Segundo ela, ainda é comum que pessoas LGBTQIAPN+ sejam procuradas apenas para falar sobre violência, preconceito ou suas experiências relacionadas à identidade de gênero. A jornalista defende que a comunidade também seja ouvida como especialista, profissional, artista ou liderança em temas diversos, como política, economia, cultura e educação. "Uma pauta ética é aquela que convida o corpo trans para falar sobre economia, política ou cultura, e não apenas sobre sua transição", afirma. Na sua avaliação, uma pauta responsável deve reconhecer pessoas trans como sujeitos de direitos e não como objetos de curiosidade.
A jornalista também aponta que um dos principais desafios do jornalismo brasileiro continua sendo o letramento sobre diversidade. Entre os erros mais recorrentes estão o desrespeito ao nome social, o uso incorreto dos pronomes e a generalização das vivências LGBTQIAPN+. Para ela, a presença de profissionais da comunidade dentro das redações contribui para ampliar a qualidade da cobertura e reduzir equívocos. Mell ressalta ainda que o respeito à identidade autodeclarada deve ser um princípio inegociável. "O erro mais básico e persistente é o desrespeito ao nome social e aos pronomes", destaca. Ela também critica práticas invasivas que transformam a identidade trans em espetáculo ou curiosidade pública, lembrando que jornalistas devem sempre se perguntar: "Essa informação é realmente necessária para a compreensão da notícia ou está sendo usada apenas para chamar atenção?".
Ao analisar as transformações da imprensa brasileira, Mell reconhece avanços importantes na linguagem e na ampliação dos espaços destinados às pautas de diversidade. "Antes, éramos apenas personagens de páginas policiais; hoje, sou eu quem segura o microfone e faz a pergunta", observa. No entanto, acredita que ainda é necessário superar a lógica de abordar pessoas LGBTQIAPN+ apenas em datas comemorativas ou em situações de violência. Para ela, o jornalismo ético se diferencia nos detalhes: na escolha das imagens, na edição, na linguagem e na forma de apresentar os entrevistados como cidadãos e protagonistas de suas próprias histórias. Como resume a própria jornalista: "Se a edição faz a pessoa parecer uma anomalia, é sensacionalismo. Se a edição mostra um cidadão, é jornalismo". Sua trajetória demonstra que a comunicação pode ser uma ferramenta poderosa de visibilidade, cidadania e transformação social, fortalecendo a representatividade e ampliando horizontes para futuras gerações de profissionais trans.
Com uma trajetória pioneira no jornalismo, Mell Almeida transformou sua presença na televisão em um marco para a representatividade trans na comunicação brasileira. Ao longo da entrevista, a jornalista refletiu sobre ética, diversidade e os desafios que ainda persistem nas redações. Para ela, a construção de uma comunicação mais inclusiva depende não apenas da presença de pessoas LGBTQIAPN+ nos meios de comunicação, mas também de mudanças profundas na forma como as histórias são contadas e nas escolhas feitas diariamente por jornalistas e veículos de imprensa.