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VozesHugo Oliveira
03de 08
Jornalista e comunicador · Imperatriz, MA

Hugo Oliveira

A gente precisa sair da zona de conforto e buscar essas vozes. São elas que conhecem a realidade.

Retrato de Hugo Oliveira
Bio

Jornalista e comunicador, Hugo desenvolve um trabalho voltado para a reflexão crítica sobre mídia, diversidade e direitos humanos. Defende uma comunicação ética e humanizada, comprometida com as múltiplas identidades da sociedade.

Perfil

JORNALISMO QUE HUMANIZA: HUGO OLIVEIRA E OS DESAFIOS DA COBERTURA LGBTQIAPN+

Em um estado marcado por fortes influências conservadoras e profundas desigualdades sociais, a forma como a mídia retrata a população LGBTQIAPN+ ainda representa um desafio para o jornalismo contemporâneo. Para o jornalista Hugo Oliveira, que atuou em redações maranhenses, a imprensa continua exercendo um papel fundamental na formação da opinião pública, mas nem sempre cumpre essa função de maneira responsável quando o assunto é diversidade. Segundo ele, a população ainda consome informação principalmente através do rádio, da televisão aberta e dos portais locais. Por isso, a maneira como as notícias são produzidas impacta diretamente a forma como a sociedade compreende as questões relacionadas à comunidade LGBTQIAPN+.

Na avaliação de Hugo, a cobertura jornalística sobre diversidade costuma ficar presa a dois extremos. De um lado, o sensacionalismo policial, que associa pessoas LGBTQIAPN+ a casos de violência, crime e tragédia. Do outro, abordagens superficiais em datas específicas, como o Dia do Orgulho LGBTQIAPN+, quando o tema recebe atenção momentânea, mas sem aprofundamento sobre direitos, cidadania ou políticas públicas."Isso faz com que a sociedade compreenda essas pautas mais como comportamento ou polêmica do que como direitos humanos", observa.

Para o jornalista, quando a imprensa deixa de contextualizar informações, explicar realidades e humanizar histórias, acaba contribuindo para a manutenção de preconceitos já existentes. Em estados como o Maranhão, onde fatores religiosos e culturais influenciam fortemente o debate público, essa responsabilidade se torna ainda maior. Além dos desafios estruturais da cobertura, Hugo chama atenção para erros que ainda aparecem frequentemente no dia a dia das redações. Entre eles, o uso inadequado de pronomes, termos ultrapassados, manchetes que reforçam estereótipos e abordagens que transformam a identidade de gênero ou a orientação sexual em elemento central da notícia, mesmo quando isso não tem relevância para o fato narrado.

Um episódio recente chamou sua atenção. Em uma ocorrência policial envolvendo um casal, o destaque dado por um blogueiro não foi a violência ou o conflito em si, mas o fato de se tratar de dois homens. Para Hugo, esse tipo de abordagem desvia o foco da informação principal e acaba incentivando comentários preconceituosos e desrespeitosos. "A situação era grave, mas a manchete acabou transformando a orientação sexual das pessoas no assunto principal", analisa.

Para ele, muitos desses erros acontecem pela falta de formação específica sobre diversidade dentro das redações e pela pressão constante por rapidez na publicação das notícias. Em um cenário cada vez mais acelerado, a checagem cuidadosa e a reflexão ética acabam sendo deixadas em segundo plano.

Outro ponto destacado pelo jornalista é a escolha das fontes, muitas reportagens sobre diversidade ainda são construídas ouvindo apenas autoridades, representantes institucionais ou pessoas que não possuem vivência direta com as questões abordadas. Como consequência, as narrativas acabam distantes da realidade enfrentada pela população LGBTQIAPN+.

Ele defende que os veículos construam uma rede mais diversa de fontes, incluindo pessoas trans, travestis, lésbicas, bissexuais, homens gays e representantes da comunidade em diferentes contextos sociais. Também considera fundamental ouvir moradores do interior, das periferias e de regiões frequentemente ignoradas pelas grandes coberturas, para o jornalista, a diversidade de fontes não é apenas uma questão de representatividade, mas também de qualidade da informação. "A gente precisa sair da zona de conforto e buscar essas vozes. São elas que conhecem a realidade e podem ajudar a construir uma cobertura mais completa", afirma.

Quando o assunto é ética jornalística, Hugo acredita que alguns princípios não podem ser negociados, mesmo diante da correria das redações. Entre eles estão o respeito ao nome social, à identidade de gênero, a proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade e a contextualização dos casos de violência, ele também critica abordagens sensacionalistas que exploram aspectos íntimos da vida de pessoas LGBTQIAPN+ como forma de atrair audiência, na sua visão, pautas relacionadas à diversidade devem ser tratadas como questões de cidadania e direitos humanos, e não como curiosidades ou exceções.

Para o futuro, Hugo espera uma imprensa mais comprometida com a escuta, a empatia e a responsabilidade social. Um jornalismo que compreenda que diversidade não é uma pauta de nicho, mas uma realidade presente em todos os espaços da sociedade. Mais do que dar visibilidade à população LGBTQIAPN+, ele acredita que a comunicação tem o dever de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e consciente. Porque informar, para Hugo Oliveira, não significa apenas transmitir fatos. Significa também reconhecer pessoas, ampliar vozes e humanizar histórias.A experiência de Hugo Oliveira nas redações e no jornalismo regional permitiu que ele observasse de perto como a mídia influencia a forma como a sociedade compreende a diversidade. Durante a entrevista, o jornalista refletiu sobre os desafios da cobertura de pautas LGBTQIAPN+, os erros mais recorrentes cometidos pela imprensa e a necessidade de uma comunicação mais ética, humana e comprometida com os direitos humanos. Para ele, o jornalismo tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais informada e menos marcada por preconceitos

A conversa
Pergunta 01

Como você avalia o papel da mídia na construção da percepção social sobre a população LGBTQIAPN+?

A mídia ainda tem um papel formador muito forte, porque grande parte da população se informa pelo rádio, pela TV aberta e pelos portais locais. O problema é que, historicamente, a cobertura sobre a população LGBTQIAPN+ ficou restrita a dois extremos: o sensacionalismo policial ou datas pontuais, como o mês do orgulho. Isso faz com que essas pautas sejam vistas mais como comportamento ou polêmica do que como questões de cidadania e direitos humanos.

Pergunta 02

Quais são os erros mais comuns que você percebe na cobertura jornalística sobre pessoas LGBTQIAPN+?

Os deslizes não vêm apenas do público, mas também dos próprios profissionais que produzem as reportagens. Eles aparecem na linguagem inadequada, no uso incorreto dos pronomes, em termos ultrapassados e em manchetes que reforçam estigmas. Muitas vezes, a identidade da pessoa acaba se tornando o foco da notícia, quando não deveria ser. Isso geralmente acontece por falta de formação específica e também pela pressa de publicar.

Pergunta 03

O que pode ser feito para ampliar a diversidade nas fontes utilizadas pelo jornalismo?

É muito comum ver matérias sobre diversidade ouvindo apenas autoridades, policiais ou especialistas que não dialogam com a realidade das pessoas LGBTQIAPN+. Precisamos ampliar as fontes, ouvir mais pessoas trans, travestis, lésbicas, moradores do interior e das periferias. Diversificar as vozes faz toda a diferença no resultado final da matéria e ajuda a construir uma cobertura mais completa e representativa.

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Advogada e defensora de direitos humanos · Imperatriz, MA
Dra. Áshira Morais de Sousa