Gabriel Novais
Comunicar também é resistir. E resistir, para mim, sempre foi uma forma de existir.

Graduando em Jornalismo e idealizador do INHAÍ – Vozes LGBT+ na Comunicação. Participou de projetos acadêmicos e produções jornalísticas voltadas para questões sociais, culturais e de direitos humanos, ampliando vozes historicamente invisibilizadas.
QUANDO A COMUNICAÇÃO SE TORNA UM LUGAR DE PERTENCIMENTO: A HISTÓRIA DE GABRIEL NOVAIS
Eu costumo dizer que não fui eu quem escolheu o Jornalismo. Foi o Jornalismo que me escolheu.
Quando era criança, em Itinga do Maranhão, cidade onde cresci, nunca imaginei que um dia estaria escrevendo reportagens, entrevistando pessoas ou construindo projetos de comunicação. Na verdade, durante muito tempo, eu nem conseguia me enxergar nesse espaço. O Jornalismo parecia distante da minha realidade, algo reservado para pessoas que apareciam na televisão ou nos grandes veículos de comunicação.
Minha história começou em Dom Eliseu, no Pará, onde nasci, mas foi em Itinga do Maranhão que construí minhas primeiras memórias e enfrentei os primeiros desafios da minha vida. Cresci sendo uma criança afeminada em uma sociedade que muitas vezes não sabe lidar com as diferenças. Desde cedo, aprendi o que era ouvir comentários preconceituosos, receber olhares de julgamento e sentir que minha forma de existir incomodava algumas pessoas.
Durante muitos anos, vivi situações que tentaram me silenciar. Mas, ao mesmo tempo, essas experiências despertaram em mim uma sensibilidade muito grande para enxergar as dores de outras pessoas que também eram colocadas à margem da sociedade. Mesmo sem perceber, eu já carregava dentro de mim o desejo de lutar por respeito, dignidade e igualdade.
O Jornalismo entrou na minha vida de forma inesperada. Duas amigas tiveram papel fundamental nessa história: Sthefany e Lyandra. A gente decidiu entrar juntos em jornalismo e sempre falavam que eu tinha capacidade de entrar em uma faculdade, sobre as possibilidades da profissão e sobre o impacto que a comunicação pode ter na vida das pessoas. Aos poucos, aquelas conversas começaram a despertar minha curiosidade.
Quando finalmente decidi ingressar na universidade, descobri um universo completamente diferente daquele que eu imaginava. Percebi que o Jornalismo não era apenas estar diante das câmeras ou apresentar um telejornal. Era ouvir histórias, registrar memórias, denunciar injustiças, valorizar trajetórias e ampliar visibilidade a pessoas que raramente encontram espaço para falar. Foi nesse momento que compreendi que a comunicação poderia ser uma ferramenta de transformação social.
Minha caminhada até aqui não foi construída sozinho. Meus pais, Edineuza e Carlos, foram fundamentais para que eu pudesse continuar acreditando nos meus sonhos. Mesmo diante das dificuldades, eles sempre estiveram ao meu lado, oferecendo apoio, incentivo e amor.
Também tive uma pessoa muito especial nessa trajetória: minha tia Dilsa. Ela sempre acreditou em mim, me incentivou a estudar, a buscar conhecimento e a construir um futuro através da educação. Mais do que isso, ela me apoiou pelo que eu sou. Em momentos em que muitas pessoas escolhem julgar, ela escolheu acolher. Outra presença que carrego comigo todos os dias é a da minha avó, Alice Novais Silva. Antes de partir, ela costumava dizer que eu estava realizando um sonho que era dela: ver alguém da família concluir uma graduação. Essas palavras nunca saíram da minha memória. Em muitos momentos difíceis na reta final da faculdade, quando pensei em desistir, lembrar dela foi o que me deu forças para continuar.
Ao longo da graduação, fui entendendo cada vez mais o papel da comunicação na construção das narrativas sociais. Percebi que pessoas LGBTQIAPN+ ainda aparecem na mídia, na maioria das vezes, associadas à violência, ao preconceito ou à marginalização. Pouco se fala sobre suas conquistas, suas contribuições profissionais, suas pesquisas, seus talentos e suas histórias de superação. Foi dessa inquietação que nasceu o INHAÍ – Vozes LGBT+ na Comunicação.
O projeto surgiu da vontade de criar um espaço onde pessoas LGBTQIAPN+ pudessem ser protagonistas de suas próprias narrativas. Um lugar para registrar histórias de jornalistas, radialistas, artistas, pesquisadores, estudantes, advogados, ativistas e comunicadores que ajudam a construir uma comunicação mais plural, humana e democrática.
Ao entrevistar cada uma dessas pessoas, percebi algo que me marcou profundamente: apesar das trajetórias diferentes, existiam experiências muito parecidas. A luta por reconhecimento, o enfrentamento ao preconceito, a necessidade constante de provar competência e o desejo de ocupar espaços historicamente negados à nossa comunidade. Essas histórias também me ajudaram a compreender melhor a minha própria.
Hoje, posso dizer com orgulho que sou um comunicador gay. Em breve, serei jornalista. E essa conquista vai muito além de um diploma ou de uma realização profissional. Ela representa a vitória de uma criança que muitas vezes foi silenciada, mas que nunca deixou de acreditar que sua voz tinha valor.
Não acredito que a comunicação, sozinha, seja capaz de acabar com a homofobia, a transfobia ou qualquer outra forma de preconceito. Esses problemas são estruturais e atravessam gerações. Mas acredito profundamente que a informação pode conscientizar, educar e provocar reflexões. Acredito que contar histórias pode humanizar realidades. Acredito que dar visibilidade a diferentes vivências pode ajudar a construir uma sociedade mais justa.
Por isso, vejo o Jornalismo como uma ferramenta de transformação. Não apenas para informar, mas também para promover diálogo, respeito e cidadania.
Minha trajetória é apenas uma entre tantas outras histórias LGBTQIAPN+ que existem no Maranhão e no Brasil. Mas, se ela puder inspirar alguém a ocupar espaços, acreditar em seus sonhos ou compreender que sua voz merece ser ouvida, então todo o caminho percorrido até aqui terá valido a pena, porque comunicar também é resistir. E resistir, para mim, sempre foi uma forma de existir.
